terça-feira, 14 de outubro de 2008

O burro.

No tempo em que não havia automóveis, na cocheira de um famoso palácio real, um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias dos companheiros de apartamento.
Reparando-lhe o pêlo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe que se fizera detentor de muitos prêmios, e disse orgulhoso.
- triste sina a que recebeste não invejas minha posição em corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pelas palavras dos reis.
- pudera! Exclamou um potro de fina origem inglesa.
- como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?
O infortunado recebia os sarcasmos, resignadamente.
Outro soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e comentou
- Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos do bruto amansador.
É tão covarde que não chegava a reagir, nem mesmo com um coice.
Não nasceu se não para carga e pancadas.
É vergonhoso suportar-lhe a companhia.
Nisto, admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem piedade.
- lastimo reconhecer neste burro um parente próximo.
É animal desonrado, fraco, inútil, não sabe viver senão sob pesadas disciplinas.
Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor-próprio.
Aceito os deveres que me competem até o justo limite; mas se me constrangem a ultrapassar as obrigações, recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar.
As observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei penetrou o recinto, em companhia do chefe das cavalariças.
- Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade, informou o monarca, um animal dócil e educado, que mereça absoluta confiança.
O empregado perguntou:
- não prefere o árabe, majestade?
- não, não – falou o soberano, é muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância.
- não quer o potro inglês?
- de modo algum, é muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça.
- não deseja o húngaro?
Não, não, é bravio, sem qualquer educação, é apenas um pastor de rebanho.
- o jumento espanhol serviria? – insistiu o servidor atencioso?
- de maneira nenhuma, é manhoso e não merece confiança.
Decorridos alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:
- onde está meu burro de carga?
O chefe da cocheira indicou-o, entre os demais.
- O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho ainda criança para longa viagem.
E ficou tranqüilo, sabendo que poderia colocar toda a sua confiança naquele animal.
Assim também acontece na vida.
Em todas as ocasiões, temos sempre grande número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a servir, sem pensar em si mesmos
Autor desconhecido

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